Quais as prioridades regionais? Saúde humana ou economia? Pela visão de um médico psiquiatra e do trabalho.

Quais as prioridades regionais? Saúde humana ou economia? Pela visão de um médico psiquiatra e do trabalho.

8 de junho de 2020, por Alexandre Zatera em Saúde

          O território do Planalto Norte de Santa Catarina foi marcado, historicamente, pela intensa exploração dos bens naturais, especialmente vegetais e também pela exploração humana. Tal processo ocorreu, primeiramente, pela intervenção do capital estrangeiro e, ao longo da história, pelas elites políticas e econômicas regionais, principalmente.

          Atualmente, devido a pandemia do coronavírus (COVID-19), percebe-se que algumas empresas estão mais preocupadas com a expansão dos seus negócios, com a pleno aumento da produção e, obviamente, da acumulação. Ou seja, muitos empresários não executam suficientemente as sugestões ou recomendações dos especialistas, principalmente em relação ao isolamento social e outras medidas e cuidados, assim como, muitos trabalhadores também não aderem e aplicam os procedimentos e cuidados de precaução em relação à moléstia da pandemia.

          Constata-se no referido território, o crescimento de casos, principalmente trabalhadores contaminados pelo COVID-19 por conta de vários tropeços administrativos e falta de controle de trabalhadores vindos de áreas de risco para a nossa região. O resultado foi a explosão no número de casos de COVID-19, numa região que se a restrição fosse mantida não estaria com a quantidade de contaminados que agora se confirmam!

          Diante disso, e na condição de profissional da saúde, pergunta-se: como as instituições agem de forma tão primária e irresponsável? Quem serão os responsáveis pelo crescente número de atingidos regionalmente pela pandemia? Cadê a estratégia de algumas empresas pela aplicação do planejamento estratégico, de medidas de contenção e de isolamento social? As empresas estão comprometidas com qualidade de vida dos trabalhadores e o bem estar da sociedade? Afinal, a produção não parou! Mas afirmam seus representantes que é preciso cumprir as metas estabelecidas! E como fica a situação da saúde dos trabalhadores e possibilidades de replicar para outras pessoas (seus familiares)? Qual a responsabilidade e ação dos poderes públicos, seja do legislativo, executivo ou judiciário com a questão?

          O COVID-19 trouxe um novo jeito de pensar sobre nossas vidas e nossos hábitos cotidianos, mas, parece que para os grandes capitalistas isso não se aplica, mesmo que seja à custa da insegurança sanitária de municípios, seja pela continuidade de sua produção “que não pode parar” mesmo numa época onde o COVID-19 grassa agora, sem controle por dois municípios vizinhos!

          Para refletir: será que vale a pena investir esperanças de emprego e renda em capitais de caráter extrativistas que atuam na região, mas que não reinvestem qualitativamente nas pessoas deste território? Pois o que fazem são migalhas diante da riqueza que extraem dessa região! Vale a pena investir na velha política do “toma lá da cá” e continuar apenas explorando o território do Planalto Norte Catarinense? Como podemos reagir frente a tais situações e contextos?

          Enfim, são reflexões de um cidadão (Médico) e sensível em ver todos os dias pessoas adoecidas pelo COVID-19 e tantas outras doenças, além de relações de trabalho extremamente injustas.

          Lembro aqui o livro do escritor francês Vicent de Gaulejac “A Gestão como doença social”. Sugiro que esses que os industriais e capitalistas regionais leiam essa obra. Fica a dica!

Dr. Alexandre Zatera, Médico Psiquiatra e Médico do Trabalho. Diretor técnico da LivreMente Consultório Médico. Contato 

 

Tags:

alexandre, Canoinhas, covid-19, economia, empresas, medicina, médico, pandemia, reflexão, saúde, trabalhadores

Compartilhe: